A princípio, um grupo de trabalhadores da indústria metalúrgica Sodecia da Amazônia Ltda estava querendo denunciar somente a falta de alimentação, que a indústria deixou de servir na jornada de 6 horas de trabalho, aos sábados, em regime de hora extra.

Mas a denúncia evoluiu e impressionou o Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas pelo volume de problemas acumulados dentro da fábrica.

Feitas por um grupo de trabalhadores, as denúncias de que eles desempenham jornadas duplas, que chegam, em muitos casos, a 16 horas de trabalho ininterruptas, em jornada noturnas, cumprindo horas extra obrigatórias e espera de mais de 2 horas depois de sair da estafante linha de produção para pegar a rota, que só sai às 7 horas da manhã, vão ser investigadas e denunciadas nos órgãos públicos pelo Sindicato.

Valdemir Santana

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Valdemir Santana, enviou áudio ao portal Correio da Amazônia, reagindo à tentativa de implantação da semiescravidão por essa fábrica de portugueses, no Polo Industrial de Manaus (PIM). Ouçam o áudio:

Desvio de função

Além de não receberem alimentação aos sábados, serem obrigados a ficarem até 16 horas dentro da fábrica, à noite, muitos dos trabalhadores da Sodecia tem problemas com desvio de função. Ou seja, são contratados como auxiliares de produção, mas operam robôs (operador de máquinas), mas com salário de auxiliar.

 

Jornada de trabalho divulgada pela empresa

Represália

“Nós entramos às 15h20 na jornada de segundo turno e deveríamos sair às 23h20. Mas eles pedem para fazer extra até às 5h00 da manhã”, destaca um dos trabalhadores que pediu sigilo do seu nome, para evitar represálias, assim como todos os outros que denunciaram os maus tratos dentro da empresa.

Depois de uma jornada de 14 horas, os trabalhadores vão pegar o ônibus da rota. É quando tem a surpresa. A rota só saí às 7h00 horas e eles tem que voltar para casa, sem tomar café, cansados, para dormirem e voltar ao trabalho, novamente às 15h20. Como o trânsito de Manaus é uma maravilha, geralmente a rota passa duas horas antes.

Insalubridade

O pior da jornada dupla, com mais 2 horas de gratificação é que os funcionários da Sodécia ainda estão correndo o risco de perder a insalubridade. Eles instalaram um ar condicionado que não suporta o volume de calor e o tamanho do ambiente que deveria estar refrigerado e, mesmo com calor insuportável, querem tirar a insalubridade dos trabalhadores alegando que a fábrica fornece condições ideais de trabalho.

“Nesse ano de 2021 a gente foi lesado, fizeram a gente trabalhar, no feriado, em troca de dia normal. Vamos levar a denúncia ao Sindicato dos Metalúrgicos, para exigir os nossos direitos”, disse um dos trabalhadores do grupo.

Fusão

Depois que o Grupo Sodecia da Amazônia comprou a empresa do setor automotivo Scórpios da Amanônia em em agosto de 2020, a Sodecia resolveu nivelar os trabalhadores pelo pior que a outra empresa tinha, ou seja, tirar a insalubridade e deixar todos iguais aos funcionários da Escórpios. Os trabalhadores reclamam também da superlotação do galpão, que agora tem trabalhadores das duas fábricas, antigos e novatos, todos sem insalubridade.

Assédio

Além de todos os problemas citados acima, os trabalhadores também sofrem de assédio e maus tratos dos encarregados, que mais se parecem com ‘carrascos’ do que superiores dentro da fábrica. “Eles são brutos, ignorantes, tratam todos mal, como se estivessem constantemente com problemas familiares e querem descontar nos funcionários”, comparam.

“O encarregado Renato Castrofo e o Samuel Miranda estão disputando o título de quem mais assedia os trabalhadores. É como se eles fossem ‘coronéis de barranco’ dando ordem dentro da fábrica. Ou seja, Assédio Moral”, fizeram.

NT:  O termo “coronel de barranco” significa um homem que manda na região e dita as regras, delegando funções em meio à floresta, na base do chicote e ameaças.

FONTE: CORREIO DA AMAZÔNIA